
A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais
A apropriação da linguagem escrita representa um dos marcos mais significativos no desenvolvimento humano e social. Nos anos iniciais, esse processo não é apenas uma aquisição técnica, mas a inserção plena da criança em um universo de cultura, interação e significação. A proposta do livro, "A Linguagem Escrita nos Anos Iniciais", é descortinar as múltiplas facetas dessa jornada, oferecendo um percurso teórico e prático que visa transformar o ensino da escrita, partindo da infância para a alfabetização.
Compreendendo que as práticas pedagógicas contemporâneas são o resultado de um longo percurso histórico e filosófico, iniciamos nossa trajetória no Capítulo 1: Panorama Histórico da Educação Infantil. Este capítulo debruça-se sobre a própria constituição do conceito de infância. Partindo da Antiguidade, com a autoridade inconteste do pater familias, e atravessando a reconfiguração de valores trazida pelo Cristianismo, pelo Renascimento e pelos séculos subsequentes, investigamos como a sociedade ocidental passou a enxergar a criança. A análise se aprofunda na institucionalização da educação infantil no Brasil, desde as primeiras creches e jardins-de-infância, marcados por um viés higienista e assistencialista, até a sua consolidação como primeira etapa da Educação Básica, demonstrando como nossa visão atual é tributária dessas transformações seculares.
Uma vez estabelecido o panorama histórico, o Capítulo 2: Aspectos da Aprendizagem na Educação Infantil volta-se para os fundamentos psicocognitivos do desenvolvimento. Exploramos como as concepções de criança e infância moldam as diferentes funções atribuídas à pré-escola — seja ela assistencial, preparatória ou pedagógica. O capítulo mergulha nas teorias seminais que alicerçam a prática educativa, notadamente a perspectiva psicogenética de Jean Piaget, com seus estágios de desenvolvimento, e a abordagem histórico-cultural de Lev Vygotsky, que ressalta o papel da interação social e da mediação na construção do conhecimento, introduzindo o conceito fundamental de Zona de Desenvolvimento Proximal. Fundamentados no "quem" histórico e no "como" cognitivo, adentramos o cerne de nossa discussão no Capítulo 3: O Ensino e Aprendizagem da Língua Escrita. Aqui, o processo de alfabetização é dissecado não como uma simples decodificação, mas como um processo complexo de apropriação de um sistema simbólico, em linha com as teorias de Vygotsky e Leontiev. Diferenciamos os conceitos cruciais de alfabetização e letramento, analisando as especificidades do contexto brasileiro. O capítulo avança para as contribuições da psicogênese da língua escrita, detalhando os níveis conceituais que a criança percorre em sua tentativa de compreender esse objeto cultural.
Finalmente, o Capítulo 4: Currículo e Linguagem Escrita na Educação Infantil situa essa discussão no campo da prática institucional e da política pública. Investigamos como a integração entre a Educação Infantil e o Ensino Fundamental é (ou deveria ser) articulada, defendendo a superação de rupturas abruptas. O currículo emerge como uma seleção cultural que define o que é legítimo ensinar. Analisamos criticamente os documentos curriculares oficiais — das Diretrizes Curriculares (DCNEI) à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), passando pela Política Nacional de Alfabetização (PNA) —, mapeando como a linguagem escrita é neles contemplada e quais as implicações dessas distintas abordagens para o cotidiano da sala de aula. Ao percorrer este caminho, da história da infância à análise curricular, esperamos oferecer aos educadores, pesquisadores e gestores um material denso e reflexivo, capaz de subsidiar práticas pedagógicas que respeitem a criança como sujeito ativo, histórico e social, garantindo seu pleno direito de se apropriar da linguagem escrita em toda a sua complexidade e potencialidade.
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